Nunca vi um
passarinho tão de perto. Pude olhar dentro de seu bico o vermelho rosado da
língua e o fundo de sua garganta. Seus olhos sobre mim a me dizer algo que eu
não compreendi de cara. E pedi, falando baixinho, ao que ele respondeu num canto
curto. Falou com os olhos e com o corpo inteiro, chegando mais perto de mim.
Suas penas de cor cinza foram apenas a primeira visão. Depois, com tamanha
proximidade, percebi o azul da cauda brilhante debaixo da luz amarela de
domingo.
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Olhos nos olhos |
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O instante fotografado |
Eu estava sentada
na cadeira-rede pendurada na varanda de casa. Depois do café da manhã, fiquei
lendo preguiçosamente uma revista de notícias. Um canto de pássaro me chamou a
atenção, tão alto que parecia perto. E qual não foi a minha surpresa quando o
vi ali, na base de madeira que sustenta a cadeira-rede. A primeira sensação foi
a de me sentir escolhida. Achei que voaria dali a segundos, tinha vindo tão
perto só para me dar bom dia! É que eu tenho essa mania de conversar com as
plantas do jardim e com os passarinhos. Muitos já visitaram a varanda, ciscando
migalhas esquecidas de pão. Ou em voo rasante que sempre penso ter sido um olá, como vai! que passarinho dá a quem
ama tê-los em volta da casa.
Mas aquele passarinho
no domingo me deu mais que um bom dia! Quis chamar Celso para dividir comigo aquela visita, mas o medo de que o som o assustasse me calou. Fiquei quieta,
olhando olho no olho como nunca havia feito antes. E aquela troca de olhar tão
intensa entrou como um vento varrendo a alma, remexendo folhas secas dentro de
mim. Ele cantava lento agora. Olhava dentro dos meus olhos e se movia devagar,
trêmulo. Será que estava ferido, doente? Aprendi há muito tempo que passarinho
é assim mesmo, tem essa mania de tremer, o que demonstra sua fragilidade como
se fosse uma forma de nos pedir para não machucá-lo. Depois imaginei, tão
pequeno, que fosse um filhote ainda não treinado na arte de voar alto. Embora
pensasse tudo isso enquanto não conseguia tirar os olhos dele, minha sensação
maior ainda era a de que estava ali simplesmente para estar comigo.
Tentei conversar. Mesmo assobiando muito mal, tomei a iniciativa de começar um diálogo.
Ele continuava a me olhar sereno e perguntador, exatamente como eu o olhava. Ao
ouvir o assobio, Celso veio pensando que o chamava. Eu pedi baixinho para que
viesse devagar porque tinha um passarinho ali comigo, muito perto. Ele veio e
começou a fotografar o instante, como a prendê-lo numa gaiola de sonho. Meu
passarinho... Sim, naquele momento já me sentia um pouco dona dele, que se aproximava
ainda mais. Veio devagar pelos punhos. Imaginei que sentisse fome e Celso
trouxe uma metade de banana. Estendi a mão devagar e ele veio mais perto. Claro
que chorei! — impossível segurar a emoção de ter um passarinho vindo comer na
minha mão. Uma mistura de poder e humildade correram pelas minhas veias num
arrepio. O tempo parou para nós, como se fosse uma cena congelada pelo controle
remoto de um vídeo-cassete numa antiga sessão da tarde.
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Comendo na minha mão |
Depois de um tempo,
voou raso, pouco acima do chão e chegou até as cadeiras do outro lado da
varanda. Fui até lá e calculei que tinha sede. Peguei um pires pequeno com água
e coloquei bem perto. Ele nem ligou. Deixei-o ali por compreender que havia
estado comigo o quanto quis e o momento agora era de tentar voar sozinho. No
caminho até o escritório, nos fundos da casa, ele me seguiu. Eu pensava nas
crianças, especialmente em Clarisse, que ficaria impressionada com essa visita
tão especial.
Entrei e ele parou diante da porta, esperando minha volta. Celso sugeriu que eu abrisse o chuveiro. Fui até
lá e ele novamente veio atrás de mim. Ficou olhando a água cair e eu juntei um
pouco d’água nas mãos para molhá-lo com delicadeza. Resignado, ele se deixou ficar
como quem aceita uma espécie de batismo. Àquela altura eu tinha toda a certeza
de que vivia um instante sagrado e que passarinhos podem ser anjos, estrelas,
enfim, passarinhos: esses seres que estão no mundo para espalhar beleza e nos
chamar a atenção para o sagrado da vida.
Alimentado e refeito
com a água, ensaiou mais um voo. Conseguiu chegar até a hera que cobre o muro.
Deixei-o ali, em contato com a natureza, que melhor o ajudaria a encontrar seu
caminho, e voltei ao escritório. Ele veio de novo até a porta. E de novo fui ao
seu encontro. Estendi a mão e ele não ofereceu resistência. Peguei-o com medo,
a vida tremendo nas minhas mãos. Celso sugeriu que eu deixasse ele bicar meu
dedo para se sentir seguro. Deixei e ele, em vez de bicar, segurou meu
dedo com o bico, como um bebê recém-nascido que se agarra com força ao dedo da
mãe. Fiz carinho e perguntei baixinho o que ele queria me dizer. Nada me disse
e eu não consegui mais segurar aquela vida trêmula. Pensei na confiança que me
dera ao se entregar inteiro nas minhas mãos. Soltei-o e o vi pousar na mesa,
onde ficou por um tempo.
Voltei ao escritório
e ele não veio junto. Entendi que nosso encontro havia terminado. Agradeci em
silêncio, como quem reza. Chorei de uma alegria estranha, sentindo a matéria da
vida e ao mesmo tempo o que ela tem de etéreo. Entrei em outra história, de
textos no computador e por algum tempo deixei de pensar nele. Ao sair, não
estava mais por perto. Também não o procurei. Preferi respeitar profundamente o
mistério daquilo.
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Matéria viva e etérea da vida em cinza e azul |
Pensei em Clarice
Lispector e nas tantas histórias que escreveu sobre esses instantes de sentir a
matéria viva da vida. Eu agora também estava ali, como G.H. diante de uma
barata, como a menina diante de uma galinha de domingo. Era eu diante de um
passarinho e ele me disse mais de mim do que eu nunca soube. Segui o dia e
contei a história a algumas pessoas. Em nenhuma das vezes o relato sequer
chegou perto do que foi o instante. Por isso estou agora escrevendo esta
história que bem parece conto de pescador mas aconteceu de verdade. Além da
minha alma transformada, ficaram as fotos que Celso registrou com delicadeza,
sem perder o instante. E também ficou no ar o mistério das coisas mais simples.